Quem não pode com a formiga, não assanha o formigueiro

Depois do recesso de fim de ano, cá estamos de volta, no modo férias. Por isso, o formato diferente. Dividindo-me entre diversão, viagens e descanso, sigo de olho nas notícias e em (quase) tudo a meu redor.  E, olha, as polêmicas dos últimos dias foram muitas, a começar pelas recuadas do governo Jair Bolsonaro. Particularmente, não quis dar muito cartaz ao vídeo dos jovens empresários falando mal de nordestino, mas, irritou-me saber que, enquanto o salário mínimo decresceu na nova gestão federal, filhinho de vice-presidente passou a receber R$ 36,3 mil… Nepotismo na cara dura.

Confere aí a crônica da semana 😉

Foi bom pra você?..

2018 foi um ano, no mínimo, intenso. Vamos relembrar alguns dos fatos mais marcantes?.. E me digam aí: o que teve de melhor e de pior no ano de vocês?.. Ah, adeus ano velho, viu?.. Foca em 2019, que tudo vai dar certo. 😉

FICHA TÉCNICA:

Projeto e texto: Sílvia Leitão

Fotografia: Rafael Reynaux

Edição de imagens: Sérgio Rabêlo

Questão de pele

 Dezesseis de agosto de 2018. Levei um soco no estômago entrevistando Lenne, jovem jornalista negra, que há poucos dias tinha passado por uma situação vexatória com o namorado Wictor, durante abordagem policial racista na Estação Joana Bezerra, aqui no Recife. Foi difícil escutar e, mais ainda, entender o que havia por trás do questionamento: “Por que eu, uma jornalista preta, deveria contar o que aconteceu a dois jornalistas pretos para uma jornalista branca, que trabalha para uma redação branca? Vai ser mais um ‘branco bom’ que vai escrever a nossa história”, disse-me, de cara. Doeu, mas foi fundamental para eu refletir sobre a lógica racista estrutural em que vivemos.

Minha vontade de procurá-la para conversar tinha surgido do que, no jargão jornalístico, chamamos de factual. Eu tinha editado para a TV uma matéria sobre o caso de um cobrador de ônibus negro que foi chamado de macaco por uma passageira negra, lá em Olinda. Ela teria se irritado só porque ele não tinha troco para seus R$ 100,00 e deu início a uma calorosa discussão. Uma colega dela ainda atirou uma pedra contra a janela do coletivo. Tudo foi registrado com vídeo de celular e em Boletim de Ocorrência, na Delegacia do Varadouro.

Pois bem, ao ouvir, ver, rever, cortar sonoras e montar a reportagem, enfim, lembrei-me dos desabafos de Lenne, que eu vinha lendo em rede social. Também me veio à mente uma amiga que certa vez foi questionada por uma vizinha de prédio por que iria usar o elevador social. Ela, que é negra, tinha perdido a hora e desceu para deixar o filho na condução escolar com aquela cara de quem acabou de acordar e uma roupa simples, dessas que usamos em casa. Ainda pensei na minha amiga de infância, que, muitas vezes, vi sendo escanteada pela cor de sua pele. Sem contar no companheiro de trabalho (negro), com quem estava editando o material, que já me contou episódios de discriminação.

Eu realmente não sei, por mim mesma, o que é racismo e como isso deve doer, na carne, na alma. Sou branca, como a entrevistada fez questão de me lembrar. Minha percepção, claro, é diferente. Nunca me pediram, por exemplo, para alisar cabelo ou afilar nariz para ser melhor aceita, mais “normal”, entre os demais. Mas sou capaz de me indignar, ter compaixão – independente de raça, orientação sexual, gênero ou crença. O racismo não me atinge por uma questão de pele, nem se trata de um “favor”, em nome dos Direitos Humanos. É por cada pessoa – próxima ou distante- por respeito às suas histórias, aos seus sentimentos mais entranhados. Não consigo alcançá-los em sua fundura, até tenho o estereótipo do lado opressor dessa história, apenas me solidarizo e sinto-me no dever social de fazer um alerta, abrindo espaço para reflexões.

Nem se quisesse, eu poderia ficar indiferente ao saber que a abordagem policial racista da minha entrevistada tinha sido feita por três policiais negros – ao que ela compara, com muita lucidez, ao papel do capitão do mato, serviçal dos tempos do Brasil Colônia encarregado da captura dos escravos que saíam em busca de liberdade. Ao ver o casal de negros, tatuados, o trabalho dos PMs foi inquisitório. “Você já foi preso?.. Mostra a bolsa para ver se tem arma!”. Wictor é um homem negro, de 29 anos, cheio de tatuagens. Para os policiais, estava claro que ele estaria de posse de um revólver, mas suas únicas armas eram tintas, usadas no grafite.

Em busca de drogas, o estojo de plástico onde o rapaz guardava lápis coloridos para sua arte foi vasculhado e até a lingerie que a jornalista levava na mochila foi remexida. Ao questionar as autoridades sobre aquele tratamento, ela teve como resposta um “cala a boca e deixa do teu mimimi” – uma figura de linguagem que tem sido muito utilizada, aliás, para desclassificar o movimento feminista, LGBT, das religiões de matrizes africanas, entre outros grupos.

Mas voltemos à conversa com Lenne. Sendo branca, parda, preta, amarela ou indígena, não importa a cor, não teria como não ficar estarrecida ao saber que nem de longe era sua primeira situação racista com a polícia. Há pouco mais de um mês, relatou-me, estava no Bairro do Recife quando dois policiais – que, mais uma vez, julgaram sua aparência – questionaram se o celular que ela estava usando realmente lhe pertencia, pedindo-lhe provas. E ainda se saíram com um “Você é flanelinha aqui?”. Novamente, não senti na pele sua dor, mas o relato foi suficiente para perceber o chão se abrindo, por onde aqueles PMs queriam jogar sua dignidade.

A provocação feita logo no início do telefonema de que sou uma jornalista branca, de uma redação branca, fez-me ir atrás dos números. É tudo verdade.  O Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEMAA, da UERJ) levantou o perfil de gênero e cor/raça dos colunistas dos principais jornais impressos brasileiros (O Globo, Folha e Estadão). No geral, mais de 70% dos profissionais são homens, sendo 90% brancos – no Estadão, o percentual chega a 99%.  Uma realidade que choca.

Encerro, aqui, dirigindo-me a Lenne: sou solidária a seus relatos, às suas angústias avassaladoras, diante desse racismo doentio que vem se arrastando na linha do tempo. Como você, não quero mais aceitar viver em uma sociedade tão desigual, onde nem as forças do Estado respeitam os indivíduos.

O sociólogo português Boaventura de Sousa Santos diz que estamos vivendo de fascismo social, onde há predominância estrutural dos processos de exclusão sobre os de inclusão – não se trata meramente de uma ameaça, mas está entre nós e convive com uma democracia de baixa intensidade. Não quero isso para mim, para familiares e amigos ou para os filhos que ainda espero ter. Porque, do jeito que estamos, com tanta intolerância, feminicídio, racismo, homotransfobia, ninguém é um cidadão de fato, na plenitude de seus direitos civis e políticos. Cidadania tem que ser para todos. Escrever talvez não traga soluções práticas, mas aqui contribuo com a luta que, apesar de muitos não se darem conta, é de todos nós.

 

Obs: A foto usada acima é de novembro de 2016. De uma campanha divulgada pelo Governo do Paraná deu o que falar, vocês lembram?.. Em pouco mais de cinco horas, o vídeo chamado de “Teste de Imagem” ultrapassou a marca de 1,3 milhões de visualizações, sendo compartilhado mais de 30 mil vezes. Ele repercute a avaliação de profissionais de RH que observaram imagens com pessoas brancas e negras, em situações bem semelhantes. E o resultado é um “tapa na cara” da sociedade, como essa que postei aqui. 

A banalização do assédio – Silvio Santos vem aí

No embalo da Revolução Francesa, em 1791, Olympe de Gouges elaborou a Declaração dos Direitos da Mulher e Cidadã, pela equiparação de direitos entre os sexos. O movimento feminista tomou impulso durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), quando os homens foram para as trincheiras e as mulheres às fábricas. Em novembro de 1918, as alemãs passaram a votar e ser eleitas – por aqui, só teríamos essa conquista em 1932. Na década de 60, a revolução viria com a pílula anticoncepcional. Nos anos 70, o feminismo se consolida no mundo como movimento político e de caráter sindical e, aqui no Brasil, ainda se fortalece com a Lei do Divórcio. Estudiosos dizem que estamos na terceira onda do feminismo, que teria começado na década de 90. São tantas conquistas e tantas batalhas ainda a enfrentar. Mas tudo se baseia no direito ao RESPEITO, à IGUALDADE, afinal, nós, mulheres, já cansamos de virar ESTATÍSTICAS – a cada dois minutos, cinco mulheres são espancadas no Brasil, segundo pesquisa da Fundação Perseu Abramo (2010). O machismo e seus reflexos não podem ser banalizados, basta dessa cultura opressora. Aí, nesses dias, veio um certo apresentador de TV dar uma de machão e constranger a cantora Claudia Leitte em plena transmissão ao vivo em favor das crianças da Associação de Apoio à Criança Deficiente (AACD), o Teleton. Chega de assédio. Mexeu com uma, mexeu com todas. Comigo também. Confere aí a crônica da semana.

Projeto e texto: Sílvia Leitão

Fotografia: Rafael Reynaux

Edição de imagens:  Eliel Rodrigues

As eleições acabaram?

Já perceberam que o palanque da corrida presidencial ainda não foi desmontado?.. Nas redes sociais e nas ruas, tem gente que ainda tenta convencer o coleguinha a concordar com seu candidato. Mas a corrida pelo voto acabou, embora tenha que esteja na resistência e quem não tire a bandeira das mãos. E, você, como está nesse período de ressaca das Eleições 2018?.. Confere aí a crônica dessa semana. 😉

FICHA TÉCNICA:

Texto: Sílvia Leitão

Fotografia: Rafael Reynaux

Edição de imagens: Eliel Rodrigues

 

Eleições 2018: desenlace de família

Domingo é dia de eleições. E, se nas redes sociais, na imprensa e entre os candidatos o clima só vai esquentando, os grupos de WhatsApp de família já pegaram fogo há tempos!.. Dá o play aí pra conferir a crônica dessa semana.

 

FICHA TÉCNICA:

Concepção e texto: Sílvia Leitão
Fotografia: Rafael Reynaux
Edição de Imagens: Eliel Rodrigues

Polarização sociopolítica nas Eleições 2018

Já perceberam que essas eleições de 2018 descortinaram um Brasil que estávamos tentando colocar pra debaixo do tapete?.. Ódio entre classes, intolerância e individualismo estão por trás do que estão chamando de divergência política, saindo de discussões inúteis de redes sociais para crimes – desde ameaças e agressões verbais até assassinato. Até onde essa polarização sociopolítica vai nos levar?.. Dá o play aí pra conferir a crônica.

Texto: Sílvia Leitão

Fotografia: Rafael Reynaux

Edição de Imagens: Eliel Rodrigues

 

Histórias de vida e morte de mulheres pernambucanas

Na infância, Fátima era abusada pelo próprio irmão, dez anos mais velho. Como o cérebro faz questão de bloquear certas memórias, ela já não tem certeza de quando começaram os afagos nas pernas, os beijos sedutores pelo pescoço. Mas lembra claramente o dia em que ele tentou pegar no seu peito, por dentro do sutiã – lá no início da adolescência -, quando pôde compreender que aquilo não era algo fraternal e conseguiu dar um basta. Silencioso, mas não aceitou mais ficar a sós com ele. Precisou de alguns anos até para confiar no pai, que nunca nada lhe fez.

Da adolescência até os primeiros anos da juventude, o assédio saiu de dentro de casa e tomou as ruas, nos olhares constrangedores dos homens – alguns com idade para serem seus avós até-, nas passadas de mãos nas nádegas e até na vagina. Ah, e não tinha essa história de que estava usando roupas provocantes, não – as investidas masculinas não escolhiam look, hora ou local. Podia ser na fila do caixa do supermercado, na parada de ônibus ou no agito das ruas do Centro do Recife.

Apesar dos “ficantes” e namorados desde cedo, a virgindade de Eduarda só se foi na época de faculdade. Eis que o tempo do sexo chegou. E, no momento de tantas descobertas, um relacionamento abusivo. Grosserias, palavrões, recolhimento social, implicância com toda e qualquer amiga que lhe fizesse algum alerta sobre o namorado. Tudo em nome de um amor que a jovem, ali em sua cegueira, não conseguia perceber o quão mal lhe fazia, mergulhando-a em uma prisão emocional, por cinco anos.

Aos 26 anos, Marta recebeu um pedido de casamento. Aceitou. Nem fazia ideia  do tipo de vida a dois que lhe aguardava. Uma relação amorosa vampiresca, que lhe sugava a autoestima. Noites e noites em claro à espera de um marido que custava voltar de farras homéricas. Chegava bêbado, muitas vezes também drogado e tantas outras recém-saído de outros lençóis, braços, pernas e bocetas de outras mulheres.

Seu apartamento já não tinha mais luz, sua vida toda, na verdade, era uma escuridão. Claro, não era vida ficar em meio àquelas brigas desgastantes, com objetos quebrados por toda a sala, gritos e mais gritos, bafo de álcool no rosto, chutes na cama … era fato que chegaria o dia dos socos. E chegou. No descontrole total do sujeito, que não aguentou vê-la reclamar por mentir sobre uso de droga, a violência saiu dos insultos para agressão física pesada. Ela ficou uma semana em casa, de olho roxo, fingindo para amigos e familiares que estava gripada, de cama.

Enxergando culpa em si mesma, não conseguiu denunciar o cara. Sequer teve coragem de expulsá-lo do apartamento. Chorou sozinha a cada olhada de relance no espelho. Infelizmente, precisou de mais um episódio para a ficha realmente cair. Novamente, encharcado de álcool e outros entorpecentes, em mais uma briga por causa de bebedeira pela rua, o marido volta a lhe levantar a mão. Um tanto menos frágil, dessa vez, ela grita e pede socorro. Os vizinhos batem à porta do apartamento – como se tentassem impedir o homem enfurecido – ninguém derrubou a entrada ou chamou a polícia, mas, por sorte, foi o suficiente para assustá-lo. E ele parou. Pouco tempo depois, finalmente os dois se separam. Para nunca mais voltar.

O final dessas histórias poderia ser ainda pior, como as de outras pernambucanas. Só nos últimos dias, muitas entraram para as estatísticas de feminicídio da Secretaria de Defesa Social do Estado (SDS). A vendedora Marciana Pereira da Silva, de 26 anos, esfaqueada pelo ex-marido, em Moreno, no Grande Recife, porque ele não aceitava o fim do relacionamento. A policial militar Aline Ribeiro de Araújo, de 31 anos, assassinada pelo ex-companheiro, em Tuparetama, no Sertão, depois que ele não se aguentou de ciúmes ao saber que, enquanto os dois estavam separados, ela teria se envolvido com outros homens. A estudante Flávia da Costa Nascimento, de 19 anos, lá de Glória de Goitá, na Zona da Mata, morta a tiros pelo ex-namorado, que não se conformava com o fim do namoro. Maria Lima da Silva, de 49 anos, encontrada morta em casa, no município de Ipojuca, no Litoral Sul, vítima de golpes de faca e, para a Polícia Civil, o principal suspeito é o ex-marido, de quem ela já vinha fugindo, mudando de endereço constantemente.

No Brasil, a cada dois segundos, uma mulher é vítima de violência física ou verbal, segundo levantamento do relógio da violência do Instituto Maria da Penha. De janeiro a julho de 2018, a Central de Atendimento à Mulher do Ministério dos Direitos Humanos (Ligue 180) registrou 27 feminicídios, 51 homicídios, 547 tentativas de feminicídios e 118 tentativas de homicídios. Aqui em Pernambuco, segundo as estatísticas da SDS, entre os meses de janeiro e julho deste ano, foram contabilizados 39 assassinatos de mulheres ligados a questões de gênero. E aí? Vamos continuar assim mesmo, colecionando contos trágicos, destruindo vidas e famílias?..