Em um relacionamento sério com o ventilador

Desde o final de 2018 que o calor me persegue. Não estou usando de figura de linguagem pra ilustrar o texto. É um fato. Fugi do Nordeste logo no início da dobradinha recesso/férias, mas conheci as chamas do inferno na maior selva de pedra do Sudeste. Achei que os posts dos colegas pernambucanos que moram em São Paulo fossem exagero, reclamação de nordestino que já se acostumou com as temperaturas mais amenas da cidade. Que nada, vi o burro, isso, sim!

Foi um tal de tomar litros d’água, sorvete, comprar chapéu no meio do passeio e até camiseta e mudar de roupa em pleno Centro, pra aliviar a sensação térmica. Pelamordedeus: não ventava naquela cidade e, segundo o site meteorológico Climatempo, as tardes de janeiro em São Paulo chegaram a 34,4°C. Pense! E olha que ainda nem falei sobre nossa hospedagem… Vou contar agora, relaxe, muda aí de parágrafo.

Somos adeptos do Airbnb. Sempre é uma experiência massa para melhor entender os costumes locais – especialmente fora do Brasil. Nunca nos decepcionamos com os apês por onde ficamos, mas, dessa vez, o que jamais havia me feito falta na pauliceia desvairada em outras épocas do ano, deixou-me completamente mal-humorada: não tinha ar condicionado. Olha, só não demos ponto negativo para o anfitrião porque ele tinha um retroprojetor com som digital na sala, que o Netflix virava um verdadeiro cinema, sem sair do apartamento. Aí, já viu, né? Só love.

Ao voltarmos para Hellcife, fomos assim recebidos: ar condicionado quebrado. Que maravilha. E meu marido, que se segura mais que tudo para fazer gastos não planejados, disse que aquilo não era nada, até ele poderia resolver. E fez alguma coisa?.. Os dias se passaram e nada do conserto do equipamento, só resmungos a cada nova dormida. Aí eu resolvi botar moral, usando uma palavrinha mágica para convencê-lo a tomar alguma atitude: “Vou COMPRAR um novo, não aguento mais o calor”.

Ô verbo poderoso. No mesmo dia, compramos um ventilador novo. Ah, vá lá, não foi (ainda) o refrigerador de ar, mas o “ventila” mais possante que encontramos. Dividi o máximo que pude no cartão de crédito e pensei: agora vai. Até que fiquei alguns dias vivendo um relacionamento sério com o novo equipamento – viva a Arno! Mas não demorou para eu ver o burro novamente. E nem poderia ser diferente. Segundo a Agência Pernambucana de Águas e Climas (APAC), Recife e Região Metropolitana estão com quase dois graus acima da temperatura “normal” para o período.

Não sei vocês, mas eu só tô conseguindo sair de casa se for de cabelo molhado e vou secando no ar do carro mesmo, gerando na alta potência. Também só durmo de banho tomado, de cabeça. Mal saio do chuveiro, já vou ligando o ventilador na porta, para suportar o calourão enquanto troco de roupa. Estou evitando até maquiagem!

Janeiro chegando ao fim e continuamos a sofrer com o calor. Ficamos com dois ventiladores rodando no máximo no quarto, sem quase nada amenizar a situação crítica. Só depois de outras tantas noites mal dormidas, foi que ele finalmente viu que o gasto era necessário para a paz voltar a reinar em nosso lar. Então, segunda-feira, levamos o ar condicionado para o conserto. Salve, aleluia!..

Arno, querida, já deu pra nós. Meu caso de amor é mesmo com a Springer. A fila anda, tá?!..

O “policial” do Batalhão Rodoviário

Seguindo no ritmo das férias, nesta semana, não posto aquela crônica em vídeo como costumo fazer. Dessa vez, faço um bocadinho diferente. Há poucos dias, em pleno trânsito do Grande Recife, flagrei uma figura beeem curiosa: um idoso, pedalando uma bicicleta toda adaptada como as motos do Batalhão de Polícia Rodoviária da Polícia Militar de Pernambuco. Não sosseguei até descobrir algum contato que me levasse a ele. Consegui. E, assim, conheci de perto um grande sonhador, de alma leve. Conheça também Severino dos Santos, o Biu do BPRV de Camaragibe. 😉

Embalos de sábado à noite

Tirar meu marido de casa é um drama, mas, de férias, não consigo admitir descansar o que não cansei durante de segunda a sexta e me perder no menu do Netflix no fim de semana. Todo mundo espera – e eu também – bem mais de um sábado à noite. Havíamos tentado ir a uma festinha hype com amigos, mas o programa furou. Aí me lembrei de uma casa de cervejas artesanais com um bom rock ao vivo. Pronto. Tudo certo. Vamos lá.

O cenário era um prato cheio pra minha mania de observar o comportamento social. Havia vários estereótipos. A começar por nós mesmos. Eu e ele éramos tipicamente o casal de relacionamento consolidado, saliente-se, ainda com chama acesa – com intimidade para entender um ao outro apenas com um gesto ou olhar, sem necessidade de se agarrar compulsivamente, mas, com o aumento do teor alcoólico na veia, declarações e intenções se tornavam mais ordinárias. Como nós, outros tantos, tal o rapaz ao lado, que estava com a esposa grávida. Um amor!

Um giro no ambiente e me pergunto: será que ainda tem homem que pensa que a mulherada se arruma toda pra eles? Ha-ha-ha. Né não, viu?!.. As xovenzinhas daquele bar eram a prova real disso e não estavam ali pra brincadeira. Algumas me pareciam ter apostado com as migs quem tinha malhado mais nos últimos dias, usando as roupas que mais delineassem as curvas. Estavam lindas, eu é quem não curto aqueles modelos – só pra ficar claro!.. Havia outras que não paravam de dar aquela checada na make e no look geral, usando o smartphone como espelho. Há quem fizesse tanta postagem, que deixasse o chopp esquentar. Detalhe é que, até onde vi, nenhuma delas estava em clima de paquera com carinha nenhum… só com elas mesmas.

Mas sabe o grupo que mais me chamou a atenção? Dois trios. Um de garotas e outro de garotos. Elas, bonitas e visivelmente bem resolvidas. Até o jeito como estavam arrumadas parecia bem mais natural que as demais, sem que estivessem um tico sequer menos belas ou bem vestidas. Não perdiam tempo com redes sociais. Estavam ali para curtir música, cerva e a amizade, com divertidos papos. Ao lado delas, o grupo de rapazes. Cada um no seu estilo, com seu charme, curtindo o ambiente, o menu, o som e o papo de amigos que pareciam ser de longa data. Não havia aquele velho mal-estar de ficar forçando a barra no decorrer da noite. Cada um na sua e todos felizes.

Diferente de outras casas noturnas, que só recebem a galera com no máximo 30, o público era de faixa etária eclética – graças a Deus – e todos estavam curtindo a seu modo, com mais ou menos gingado para a trilha musical. Por sinal, eu tava ali vibrando por ter optado, mais uma vez, pelo conforto e não ter que ficar com os pés doloridos por causa de salto alto, quando o tênis sempre me permite dançar por muito mais tempo. 😛

Mas tem gente que nasceu pra tiozão. E no pior sentido do termo. Eram no máximo 22h e o cara já estava lá cambaleando de tão bêbado. E, toda vez que passava por entre um grupo de mulheres, alisava os ombros e/ou cotovelos delas, como quem queria pedir licença, mesmo havendo espaço de sobra para que ele seguisse sem tocar em ninguém.

Tínhamos chegado umas 20h, por isso, 23h estávamos saindo, com sono, diga-se de passagem – era o corpo já nos lembrando que os 40 estão chegando. Pagamos e, na saída, uma funcionária pede nossos cartões de consumo e logo emenda com um pedido de desculpa. ”Perdoem-nos, isso não é o padrão de nossos clientes, já estamos resolvendo isso”. Olhei ao nosso lado e lá estava o tiozão, sendo segurado por dois seguranças e ainda alterando, dizendo que podiam chamar a polícia. Sem entender, perguntei o que estava acontecendo. “Ele entrou no banheiro feminino e tentou agarrar algumas mulheres”, respondeu-me a moça. Putz, que raiva eu fiquei!!..

Meu marido se saiu com essa logo de cara: “Se não fosse dar processo, era bom que o bar colocasse uma placa com a foto do sujeito lá dentro, informando que é um abusador e que, se for visto no local, deve ser imediatamente colocado pra fora”. Infelizmente, não contamos com o sistema de leis ao nosso favor – nem estamos nos tempos do velho oeste para afixar na parede um panfleto de procurado, embora esses tipinhos sejam, sim, criminosos.

O babaca não maculou a nossa atmosfera de sábado à noite, mas constrangeu algumas das mulheres da casa noturna que, talvez tenham até voltado pra casa mais cedo, sem graça, ou tiveram apenas de engolir a situação, simplesmente porque aquele homem achou que poderia se aproveitar delas… Até quando vamos ter que aguentar esses imbecis??.. Digo, certamente, por todas as mulheres: cansamos. Deixem-nos curtir em paz.

Quem não pode com a formiga, não assanha o formigueiro

Depois do recesso de fim de ano, cá estamos de volta, no modo férias. Por isso, o formato diferente. Dividindo-me entre diversão, viagens e descanso, sigo de olho nas notícias e em (quase) tudo a meu redor.  E, olha, as polêmicas dos últimos dias foram muitas, a começar pelas recuadas do governo Jair Bolsonaro. Particularmente, não quis dar muito cartaz ao vídeo dos jovens empresários falando mal de nordestino, mas, irritou-me saber que, enquanto o salário mínimo decresceu na nova gestão federal, filhinho de vice-presidente passou a receber R$ 36,3 mil… Nepotismo na cara dura.

Confere aí a crônica da semana 😉

O diabo veste Adidas

Normalmente é promessa de ano-novo, mas, dado o meu histórico, tá mais pra compromisso de vida mesmo. Ô tortura é manter as atividades físicas em dia, viu?! Devo ser a queridinha do mundo fitness: dando um lucro danado às academias – nunca fecho o ciclo completo e, mesmo assim, insisto em pagar adiantado o pacote anual. É uma luta! E, então, ano novo, matrícula nova. Agora vai?..

Entendam o drama que parece já fazer parte de mim. Voltemos no tempo. Meu boletim escolar era cheio de 9 e 10,  mas, em se tratando de Educação Física, caía sempre para o B, rapando num C bem vermelhinho!..  Meu lugar mais alto era no pódio como a maior organizadora das torcidas nas Olimpíadas, mas fugia como o diabo foge da cruz das competições! Cheguei a me arriscar na ginástica rítmica e a rinite me mantinha na natação, mas gostava mesmo era das aulas de teatro que, infelizmente, nunca me fizeram perder calorias.

Passado o passado, minha vida é traçar os mais (falíveis) planos pra tentar não falhar com os exercícios. No ápice da solteirice, ia nos horários mais bombados, pra me empolgar com os gatos da academia, mas, claro, eles só tinham olhos para as meninas do mesmo naipe– e isso, meus caros, nunca almejei: não dou pra halterofilista. Não mesmo.

Ah, já tentei me integrar ao grupo do funcional, achando que exercício ao ar livre era a solução para não cair no sedentarismo de vez. Na primeira sequência no Parque da Jaqueira, sequer consegui fechar o circuito e fiquei roxa de tanto suar debaixo do sol escaldante. Fui só uma vez e ainda fiquei um tempo no grupo de WhatsApp pra ver se me animava, sem sucesso.

Vivo usando o truque de deixar a roupa e o tênis ao lado da cama, pra já acordar no pique. Depois de alguns meses com o sapato empoeirando, minha faxineira o colocou na área de serviço pra lavar e passei mais um tempão pra me lembrar da sua existência. Por falar em tênis, aliás, uma vez, um instrutor me convocou a comprar um par novo, pois disse que eu não precisava usar aquele que estava descolando. Ele dizia que o pessoal já tinha entendido que eu não era burguesinha como tantas outras ali…

Nessa época, peguei um corpão e me empolguei pra comprar uns looks mais ousados pra malhar. Oxe! Quando vi o preço das peças, desisti imediatamente. Mais caro que muita roupa que uso só em festa de casamento. Não cabe no orçamento de jornalistas.

Por isso, vou bem discreta à academia. De cara lavada, roupa amassada e empolgação só tenho na hora de conversar. Mas não consigo entender como tem um bocado de mulher vai mega maquiada, cabelo escovado, fica o tempo todo falando ou trocando mensagem ao celular pra marcar alguma farra e, mesmo sem parar de falar na cerveja que tomou ou vai tomar, tem aquela barriga seca de dar inveja. Argh!

Ó, céus, salve-nos dos pecados capitais na hora de treinar!.. Confessa aí, quando não é a inveja, bem que bate a cobiça no personal trainer gatíssimo da coleguinha, ou a preguiça nossa de cada dia de fazer o treino certinho, sem contar com o combo ódio de quem deixa a TV ligada em programas de culinária na área das esteiras só pra a gula nos pegar de jeito!..

Bem, você pode estar aí se perguntando: por que essa mulher não paga um personal?.. Ah, meu bem, já fiz isso. Nosso combinado era fazer exercícios três vezes por semana, mas, no máximo, chegava a uma aula semanal… Ela perdeu a fé em mim.

Enfim, janeiro de 2019, tô indo pra guerra. Vou esquecer o tempo perdido e começar de novo – afinal, não há incentivo maior que as roupas apertadas no pós-festas de fim de ano. Mais uma primeira ficha para o meu extenso arquivo, é verdade, mas essa vai ser A ficha de treino. Algo me diz. Hoje vi um instrutor bem gordinho, fugi – se ele não reverteu a gula dele, que dirá a minha preguiça?!.. Caí nas mãos de um aprendiz do satanás. Que Deus me defenda, mas agora vai.

De carona é bem mais divertido

Acho que todo mundo tem uma história pra contar sobre as viagens em transportes públicos. Eu, inclusive. Ainda estudante, era usuária de várias linhas – desde CDU/Várzea e Rio Doce/Dois Irmãos, quando morava na Cidade Universitária, passando para Casa Amarela/Rosa e Silva e Córrego da Areia, depois de ser moradora da Zona Norte.

São muitas memórias dos “busões”. Lembram dos meninos gasguitos que subiam pra cantar, em busca do couvert dos passageiros?..  A gente era obrigado a aguentar até a última música – repertório de Chitãozinho e Xororó pra lá. Uó!!.. No meio do aperto, repentista (como no vídeo), vendedores de água e pipoca, ex-drogado dando testemunho da salvação em Cristo… E aquelas canetas que você comprava para alguém que “podia estar roubando” e, no final das contas, nem funcionava…  Alguém mais se lembra daquele senhorzinho bem magro, que andava com uma bolsa cheia de urina na Avenida Rui Barbosa? Uma imagem triste demais…

Dos tempos dos estágios em Comunicação por Recife e Região Metropolitana, não dá para esquecer do (infernal) Terminal Integrado da Macaxeira, sempre lotado; e das extintas lotações, que me levavam até Camaragibe – “Arrasta, motô”!.. Eram um insulto ao Código Brasileiro de Trânsito aquelas Kombis!.. Os motoristas corriam, furavam sinais de trânsito, ninguém usava cinto de segurança e sempre cabia mais um passageiro, mesmo que dona Maria já estivesse carregando o neto no colo, fosse o pagamento em dinheiro ou em vale A ou B.

Vieram os táxis. Morando sozinha ao final do primeiro casamento, tinha uma frota em frente a meu prédio. Sem veículo na garagem, a qualquer atraso para os compromissos, lá estava eu usando o serviço de um daqueles motoristas que estavam à disposição. Mas meu predileto era Jorge. Simpático, educado, sorridente e muito bem vestido – ele só dirige de blazer! Tinha sempre uma palavra amiga, acenava toda vez que eu passeava pela rua com Chico, meu cachorro, e ainda me emprestava livros! Fino e culto ele… Faz tempo, sou usuária VIP dos aplicativos – aqui em casa, dividimos o carro, e nem sempre estou motorizada. Mudam os veículos, multiplicam-se as histórias.

Da era Uber, 99 Táxi, Easy Táxi e afins também já tenho memórias. Infelizmente, nem todas legais. É que, em janeiro de 2017, fui vítima de um golpe, em desses carros de App. Usando identidade falsa, o sujeito me tirou pouco mais de R$ 1,2 mil, no lugar dos R$ 7,16 da corrida. Ele passou meu cartão numa maquineta com visor camuflado por identificação de uma tradicional companhia de táxi da cidade, para dar legitimidade. Ao descobrir o furto, prestei queixa, reconheci o suspeito na Polícia Civil e consegui que abrissem investigação do caso. Há mais de 30 outras vítimas como eu, tentando fazer com que ele cumpra pena pelo crime que cometeu, mesmo sem haver flagrante.

Mas, justiça seja feita: os motoristas – de ônibus, táxi, Kombi ou Uber e de APPs – sempre tiveram papel marcante em minha vida. Quando eu pegava às 6h na Folha de Pernambuco, por exemplo, o profissional que me levava sempre no mesmo horário, na linha Dois Irmãos/Rui Barbosa, já me deixava na esquina mais próxima ao jornal, para eu não andar muito pelo deserto Recife Antigo daquele horário. Detalhe: nunca fomos de conversar, a gentileza dele era fruto apenas da observação da minha realidade.

Os das empresas de comunicação em que trabalhei também são personagens da minha história. É que jornalista tem uns horários meio loucos e os patrões ficam na obrigação de nos pegar ou deixar em casa, a depender do expediente. Eles são nossos anjos, mas sempre tem aquele 1%… Um deles se destacou como vilão. O cara corria que só, até em dias de chuva, só pra dar uma de machão. Era tanta pressão psicológica andar com ele, que eu desisti do meu direito de ir com o carro do trabalho.

Mas ainda bem que meus enredos sempre tiveram mais mocinhos que bandidos. Ah, quantas vezes não contei com o companheirismo dos colegas da Rádio Jornal, que, se percebessem que eu tinha perdido a hora, ligavam até que eu acordasse, pra não chegar muito além das 4h da manhã na redação. Hoje, conto com a companhia de Seu Fábio e Lampião, que fazem do trajeto Santo Amaro-Parnamirim, às 22h, uma alegria só!

É muito papo: bastidores da emissora, política brasileira, programação do fim de semana, confissões de última hora… A mais recente delas foi narrada por um colega que sempre segue com a gente no mesmo comboio. Dia desses, ele pegou um Uber à noite e notou que estava sendo cantado pelo cara. Ihh, foi um tal de o sujeito contar sobre os clientes que até já passaram a mão na perna dele, perguntar estava namorando… Eu sei que, pra conseguir dar um chega pra lá no boy, a saída foi dizer que era filho de militar e que a educação dele não permitia esse tipo de comportamento… “Com todo o respeito, claro”, garantiu-nos.

Amigos, é por essa e por tantas outras que eu só posso dizer muito obrigada: as risadas estão sempre em dia com vocês. Mesmo depois das tardes pesadas de edição na TV, durmo leve, leve. E acordo com as energias renovadas para mais um dia, pronta para enfrentar qualquer trajeto dessa vida.

 

 

 

 

 

 

 

 

Crônica de um provador feminino

Entro numa pequena loja em busca do presente de aniversário da minha afilhada. Só havia mulheres no local – e muitas. Uma delas estava no provador, chamando enlouquecidamente pela vendedora, que, naquele alvoroço, não conseguia lhe dar ouvidos. A cliente queria um tamanho maior, queria opinião, queria atenção. Eu estava de frente para a cabine dela e para o tabuleiro da blusa que estava em prova. Resolvi ajudar.

Dei-lhe uma nova peça para experimentar. Envolta na cortina, ela agradeceu. Continuo na missão de encontrar algo pra minha sobrinha. Novamente, ouço um chamado (quase um miado) de lá de dentro. Agora a moça queria saber se não estaria inapropriada com o modelito. Como a única funcionária ainda tentava dar conta da clientela, respirei fundo e voltei a dar suporte. Pedi que saísse para que pudesse opinar com propriedade. De lá de dentro, vem mulherão de porte atlético, de IMC digno de über model. “Estou bem mesmo?”.

Minha vontade, claro, foi de dizer um “vai à merda, minha filha”. Achei um ultraje aquela pergunta, no meio de um bando de mulheres de corpos de vida real, inclusive eu, que vivo fugindo da minha dieta de diabética… Aliviei um tanto no comentário. Soltei um – “Minha filha, claro que está bom. Com um corpão desses, como seria diferente?!”. Falei sorrindo. Com uma pitada de ironia, claro, pois não estava crendo naquela insegurança.

Pensam que ficou por aí? Ninguém conseguia fazer as compras em paz. Ela não parava de interromper a vendedora e o atendimento ia por água abaixo… Já tinha gente reclamando. Volta e meia vinham novos questionamentos sobre o corpitcho da mademoiselle. Num desses não aguentei e puxei um leve veneninho das entranhas: “Tá ótimo, menina, se for pra sair com aquele crush, então, vai ser perfeito. Com certeza, agora sai o pedido de casamento. Confie!”. E ela só fazendo caras e bocas, fingindo estar sem graça…

Fiquei pensando. Seria o vestígio da criança mimada que ela teria sido? Alguém que há pouco ganhou aquela silhueta e estava querendo mostrar ao mundo todo em busca de aplausos? Carência mesmo? Enfim, curiosa que sou, na saída, não resisti e perguntei: “Qual sua profissão?” Nutricionista esportiva foi a resposta. Que jogada marketing, viu?!… Deixei a loja e lá estava a moça, divulgando o telefone de seu consultório às senhorinhas. Show de bola!.. 😉

A dois passos dos “enta” – agora é vídeo!..

SEXTOUUU!!. E o Menina Veneno está clima. Desculpaê o atraso da postagem  de hoje, mas é que a gente estava caprichando nos detalhes… Aviso aos navegantes: a crônica desta semana não é jornalística. Atendendo a pedidos, fiz uma versão em vídeo do texto À Beira da Ladeira dos Enta, publicado no blogmeninaveneno.com.br. Faço 40 anos em abril de 2019. Em crise de meia-idade, eu??.. Não, até um dia desses… E, nas ruas, o que será que o povo acha sobre velhice?.. Dá o play e confere!..

FICHA TÉCNICA:

Projeto e texto: Sílvia Leitão

Fotografia: Rafael Reynaux

Edição de imagens: Sérgio Rabêlo

Trilha: Menina Veneno, Ritchie

 

Pretinho básico de cada dia

O hábito faz parte da cultura brasileira. Os apreciadores profissionais costumam analisar o  aroma, o paladar e o ponto de torra do grão. Para nós, pobre mortais fanáticos pela bebida, fazemos um julgamento bem mais simples. Somos atraídos basicamente pela capacidade de nos tirar da embriaguez do sono, de impulsionar ideias e, de quebra, dar aquele pique pra aguentar o tranco. Não sei se o cheiro é melhor que o sabor ou vice-versa. Dúvida que permanece a cada gole.

Xícara sempre cheia. De madrugadinha, antes de sair de casa, mimo do marido, companheiro no superlativo. Na primeira hora possível na TV – pegando carona na garrafa do porteiro, ou disputando um gole da cafeteira VIP das ilhas de edição. Pense numa guerra! Tensão por que o deadline para o programa ir ao ar vai apertando e pra não ficar de fora do rateio, afinal de contas, o café oficial da redação dona Jô só nos entrega às 8h da manhã – muito tarde, pra quem pega entre 4h e 5h. Algumas vezes, ainda levo uma mini garrafa térmica pra aguentar essa espera interminável!

Engraçado é que esse meu gosto pelo cafezinho só chegou mesmo quando passei a conviver com a agitação do ambiente do jornalismo. Lembro-me perfeitamente de quando fui arrebatada de uma vez por todas. Terminando a faculdade, ainda me dividia em dois estágios – fazendo reportagem e apresentação em rádio comunitária em Camaragibe, e já maturando meu vício por televisão, enlouquecida na produção de Polícia na TV Jornal/SBT Recife. Haja café!

Naquele tempo eu me contentava com uns copinhos, ainda não conhecia a caneca. Minha progressão viria a passos lentos. Antes disso, completamente diferente. Criança à mesa, sempre pedia peloamordedeus à minha mãe que só colocasse um pinguinho de nada no leite, pra não dizer que não ia provar… Velhos tempos! Hoje, viciada.

Acho que minha história profissional está instrissecamente ligada ao uso da cafeína. Repito: ca-fe-í-na. Não entendam mal… Costumo dizer, inclusive, que água, café e banheiro é a tríade que preso com ardor na correria do ofício. Não nego (e normalmente peço) mesmo. Na Rádio Jornal do Commercio, por exemplo, as serventes já sabiam que eu chegava às 4h da manhã ávida ao menos por um golinho, contudo, tinha que esperar até 7h!! Que desespero! Como tinha muito o que apurar/ler/redigir até lá, estava tudo certo.

Quando em impressos, o cenário era igualzinho. As meninas da copa da Rádio Jornal trataram de avisar às colegas do Jornal do Commercio como eu era. Assim, logo no primeiro dia em que prestei serviço no caderno de Cidades, lá vinha uma delas com o primeiro copo quentinho, antes mesmo de a garrafa estar pronta para o uso geral. Mimo que me ajudava na missão de ser a primeira a chegar e começar a montar o quebra-cabeça das apurações do dia.

Certamente, no entanto, a melhor história dessa paixão avassaladora se deu mesmo nos meus tempos de repórter da Folha de Pernambuco. Durante uma cobertura de grande repercussão, acreditam que conquistei o advogado do caso por essa relação com meu pretinho básico de cada dia?.. Pois foi.

Estava eu, louca, batendo matéria já à noite, tentando reunir informações quentinhas com minha colega pra ver o que daríamos de diferente de nossos concorrentes JC e Diario de Pernambuco. Eis que recebo a ligação do cara dizendo que decidiu me entregar um importante documento, mas, não o fez sem antes se certificar: “Você é mesmo aquela loirinha que não parava de pedir café, não é mesmo?”. Estão vendo?.. Rendeu-me um furo!!

Tinha que dar match. E foi o que aconteceu. Literalmente. Já contei que meu dia começa com o cafezinho preparado pelo marido, né?! Pois bem, foi justamente numa casa especializada que nossos caminhos se cruzaram. Não era um encontro às escuras nem nada parecido. Simplesmente temos um amigo em comum que queria conversar para montarmos um projeto. Mas, ele chegou mais de uma hora atrasado (um cano estourou) e, graças ao café e aos momentos de deleite que ele nos proporciona, toda a nossa história começou ali, entre uma xícara e outra e mais outra e mais outra… Tem como não amar?..

P.S.: Escrevi essa crônica quando pegava às 5h da manhã na TV Clube/Record TV Recife. Há um tempinho, mudei para o turno da tarde, mas, claro, sem perder o vício por café!.. <3 

 

 

Revisitando Natal – parte 2

Vocês se lembram da minha última viagem a Natal, em julho? Durante o passeio pela orla de Ponta Negra, fiquei toda sem jeito com o comentário da promotora de vendas de um resort de Pipa, no Litoral Sul do Rio Grande do Norte, que, ao descobrir minha idade, soltou um “tá mais nova que minha mãe” (??!!). Mas esse estranhamento iria passar, é que eu ainda não sabia que, em visita a Genipabu e Maracajaú, ao Norte da Capital do Sol, descobriria por que danado que essa mulher foi capaz de me comparar à sua progenitora, mesmo, crendo eu, ter a tal senhora faixa etária igual à de mamãe!..

Então, vamos lá. Estávamos por conhecer o guia turístico Jefferson, que tinha uma intrigante crise de identidade – pode deixar que eu vou explicar tudo, mas, tenham calma, o contexto é interessante/importante. Ainda tínhamos dúvida sobre o melhor passeio a ser feito – o tradicional de buggy no Parque das Dunas ou nos aventurar no mergulho nas piscinas naturais do “Caribe Brasileiro” da costa de Maracajaú. Pegamos estrada para decidir o que faríamos de nosso domingo.

Em lugar extremamente turístico, chega a ser agressiva a abordagem dos guias e comerciantes locais. Chatérrimo. Como não queria estragar a viagem, o jeito foi ficar distraindo o mau humor de Kiev. Estratégia que sempre funciona, aliás. Primeira parada, Genipabu, a 10,9 Km da capital. Jefferson nos convence a parar no estacionamento que indicou e logo foi nos mostrando um catálogo com 1001 possibilidades de passeios. Pedi para vermos os peixinhos do fundo do mar. Ele disse que, na volta, ainda poderíamos fazer tirolesa na Lagoa de Jacumã e “esquibunda” nas dunas. Achei mais prudente trocar o biquíni que estava usando por um maiô e ficar mais à vontade para tantas aventuras em vista.

Mudei a roupa de banho e ainda encontrei uma saída de praia a R$ 10,00 no quiosque em frente ao banheiro público que usei. Pechincha das boas, não deixei passar. 😛 Enfim, voltei ao carro para ver como andava a negociação com Jefferson. Ele e meu marido disseram que estava tudo certo, então, partimos rumo à Maracajaú. No combinado deles, o guia viria com a gente. Nada de buggy. Primeira decepção, mas tudo bem. Durante todo o trajeto, um inconveniente, o cara ficava pedindo para a gente acelerar. E eu negando, dizendo que tínhamos que respeitar os limites de velocidade. Ele resolveu ligar para o dono do barco e pedir nos aguardassem: “Estou chegando com um casal. Espera. É Bruno quem está falando”. Ouvi um estalo bem grande ecoando na minha cabeça.

“Não era Jefferson o seu nome?”, perguntei ao guia, que estava em nosso banco traseiro. Agarrei forte minha bolsa e aguardei curiosamente a resposta. “É Jefferson Bruno”, garantiu. Deixei pra lá. Até porque nem deu tempo de refletir muito a respeito, com ele danado a falar mais que o homem da cobra, como já dizia a mãe de minha mãe. Falou da violência no Rio Grande do Norte, cujos traficantes estavam amarrando em arame farpado os que não pagavam suas dívidas de drogas, do quanto vinha conseguindo tirar com o trabalho com o turismo local e, depois de receber uma ligação da (segunda) esposa, revelou detalhes de sua vida amorosa. Deu tempo de tudo isso, nos 42 Km via RN-303/BR 101!

Lá pela metade do caminho, quando Jefferson Bruno começou a nos revelar como conheceu a atual esposa foi que eu comecei a entender a perspectiva da promotora de vendas Jéssica, de Ponta Negra. “Fui casado nove anos com a primeira mulher. Mas eu me ajuntei com outra, há seis anos. E olhe que eu só tenho 29 anos!”, contou-nos. Fiz uns cálculos rápidos e percebi que esse povo do Rio Grande do Norte parece que gosta de casar cedo. E o questionei se ele também não achava o mesmo. “Não, foi bom. Eu precisava ficar quieto. Tava solto na bagaceira. Bebendo muito, fora outras coisas, né?!…”, dando a entender sobre namoradas, bem no plural.

Recorri à Matemática de colégio (quem é de Humanas se esforça um pouco mais nessa tarefa) e percebi que ele tinha 14 anos quando “subiu ao altar”!!.. E já acreditava, à época, precisar de “corretivo” para entender que a vida não é só farra, minha gente! Eu, no Recife, aos 14 anos, estava começando meu primeiro namoro nessa idade – tudo bem, não era tão ingênua, havia dado o primeiro beijo aos 11 , mas estava muuuito longe da realidade do guia potiguar.

Acho que tem um bocado de gente saidinha desenrolada por demais no Rio Grande do Norte. Algumas até espertinhas… Digo isso porque Jefferson Bruno ainda nos traria mais surpresas… Depois do mergulho nas águas claras de Maracajaú, fomos à Lagoa de Jacumã. Outro lugar lindo daquele estado, em que nos privou de um bocado de programação dizendo que haveria um ponto melhor (descobriríamos depois que o outro lugar era privado, onde ele receberia comissões). Na saída, o rapaz do estacionamento da área de restaurantes soltou para ele: “Tchau, Márcio”.

Nem ousei questionar aquela nova identidade. Graças a Deus, estávamos perto do fim do programa. Decidimos encerrar por ali mesmo e voltarmos a Natal. Dessa vez, sem qualquer companhia duvidosa como carona. Ao menos lá, o único perigo por que tinha passado foi ter sido chamada de velha nas entrelinhas do discurso de vendas desastroso de Jéssica. É aquela coisa, estava mais feliz com ela e não sabia: não tinha comportamento suspeito e era apenas Jéssica (ou não), do início ao fim da caminhada pelo calçadão de Ponta Negra.

Moral da história: se tiver mais de 30 anos, melhor não dizer sua idade ao pessoal de Natal e da região ao Norte da cidade. Eles podem te julgar pela precocidade deles, mesmo que você seja usuária de Renew e afins desde os 25. Ah, e nunca, nunca leve um guia turístico no seu próprio carro. Só o faça se necessário e ainda dê uma de policial ou guarda rodoviário e cobre toda a sua documentação. Pode ser um Jefferson Bruno Márcio que não nos fez mal, só deu mesmo dor de cabeça, mas, de enrolões como ele o inferno tá é cheio!..