O diabo veste Adidas

Normalmente é promessa de ano-novo, mas, dado o meu histórico, tá mais pra compromisso de vida mesmo. Ô tortura é manter as atividades físicas em dia, viu?! Devo ser a queridinha do mundo fitness: dando um lucro danado às academias – nunca fecho o ciclo completo e, mesmo assim, insisto em pagar adiantado o pacote anual. É uma luta! E, então, ano novo, matrícula nova. Agora vai?..

Entendam o drama que parece já fazer parte de mim. Voltemos no tempo. Meu boletim escolar era cheio de 9 e 10,  mas, em se tratando de Educação Física, caía sempre para o B, rapando num C bem vermelhinho!..  Meu lugar mais alto era no pódio como a maior organizadora das torcidas nas Olimpíadas, mas fugia como o diabo foge da cruz das competições! Cheguei a me arriscar na ginástica rítmica e a rinite me mantinha na natação, mas gostava mesmo era das aulas de teatro que, infelizmente, nunca me fizeram perder calorias.

Passado o passado, minha vida é traçar os mais (falíveis) planos pra tentar não falhar com os exercícios. No ápice da solteirice, ia nos horários mais bombados, pra me empolgar com os gatos da academia, mas, claro, eles só tinham olhos para as meninas do mesmo naipe– e isso, meus caros, nunca almejei: não dou pra halterofilista. Não mesmo.

Ah, já tentei me integrar ao grupo do funcional, achando que exercício ao ar livre era a solução para não cair no sedentarismo de vez. Na primeira sequência no Parque da Jaqueira, sequer consegui fechar o circuito e fiquei roxa de tanto suar debaixo do sol escaldante. Fui só uma vez e ainda fiquei um tempo no grupo de WhatsApp pra ver se me animava, sem sucesso.

Vivo usando o truque de deixar a roupa e o tênis ao lado da cama, pra já acordar no pique. Depois de alguns meses com o sapato empoeirando, minha faxineira o colocou na área de serviço pra lavar e passei mais um tempão pra me lembrar da sua existência. Por falar em tênis, aliás, uma vez, um instrutor me convocou a comprar um par novo, pois disse que eu não precisava usar aquele que estava descolando. Ele dizia que o pessoal já tinha entendido que eu não era burguesinha como tantas outras ali…

Nessa época, peguei um corpão e me empolguei pra comprar uns looks mais ousados pra malhar. Oxe! Quando vi o preço das peças, desisti imediatamente. Mais caro que muita roupa que uso só em festa de casamento. Não cabe no orçamento de jornalistas.

Por isso, vou bem discreta à academia. De cara lavada, roupa amassada e empolgação só tenho na hora de conversar. Mas não consigo entender como tem um bocado de mulher vai mega maquiada, cabelo escovado, fica o tempo todo falando ou trocando mensagem ao celular pra marcar alguma farra e, mesmo sem parar de falar na cerveja que tomou ou vai tomar, tem aquela barriga seca de dar inveja. Argh!

Ó, céus, salve-nos dos pecados capitais na hora de treinar!.. Confessa aí, quando não é a inveja, bem que bate a cobiça no personal trainer gatíssimo da coleguinha, ou a preguiça nossa de cada dia de fazer o treino certinho, sem contar com o combo ódio de quem deixa a TV ligada em programas de culinária na área das esteiras só pra a gula nos pegar de jeito!..

Bem, você pode estar aí se perguntando: por que essa mulher não paga um personal?.. Ah, meu bem, já fiz isso. Nosso combinado era fazer exercícios três vezes por semana, mas, no máximo, chegava a uma aula semanal… Ela perdeu a fé em mim.

Enfim, janeiro de 2019, tô indo pra guerra. Vou esquecer o tempo perdido e começar de novo – afinal, não há incentivo maior que as roupas apertadas no pós-festas de fim de ano. Mais uma primeira ficha para o meu extenso arquivo, é verdade, mas essa vai ser A ficha de treino. Algo me diz. Hoje vi um instrutor bem gordinho, fugi – se ele não reverteu a gula dele, que dirá a minha preguiça?!.. Caí nas mãos de um aprendiz do satanás. Que Deus me defenda, mas agora vai.

Crônica de um provador feminino

Entro numa pequena loja em busca do presente de aniversário da minha afilhada. Só havia mulheres no local – e muitas. Uma delas estava no provador, chamando enlouquecidamente pela vendedora, que, naquele alvoroço, não conseguia lhe dar ouvidos. A cliente queria um tamanho maior, queria opinião, queria atenção. Eu estava de frente para a cabine dela e para o tabuleiro da blusa que estava em prova. Resolvi ajudar.

Dei-lhe uma nova peça para experimentar. Envolta na cortina, ela agradeceu. Continuo na missão de encontrar algo pra minha sobrinha. Novamente, ouço um chamado (quase um miado) de lá de dentro. Agora a moça queria saber se não estaria inapropriada com o modelito. Como a única funcionária ainda tentava dar conta da clientela, respirei fundo e voltei a dar suporte. Pedi que saísse para que pudesse opinar com propriedade. De lá de dentro, vem mulherão de porte atlético, de IMC digno de über model. “Estou bem mesmo?”.

Minha vontade, claro, foi de dizer um “vai à merda, minha filha”. Achei um ultraje aquela pergunta, no meio de um bando de mulheres de corpos de vida real, inclusive eu, que vivo fugindo da minha dieta de diabética… Aliviei um tanto no comentário. Soltei um – “Minha filha, claro que está bom. Com um corpão desses, como seria diferente?!”. Falei sorrindo. Com uma pitada de ironia, claro, pois não estava crendo naquela insegurança.

Pensam que ficou por aí? Ninguém conseguia fazer as compras em paz. Ela não parava de interromper a vendedora e o atendimento ia por água abaixo… Já tinha gente reclamando. Volta e meia vinham novos questionamentos sobre o corpitcho da mademoiselle. Num desses não aguentei e puxei um leve veneninho das entranhas: “Tá ótimo, menina, se for pra sair com aquele crush, então, vai ser perfeito. Com certeza, agora sai o pedido de casamento. Confie!”. E ela só fazendo caras e bocas, fingindo estar sem graça…

Fiquei pensando. Seria o vestígio da criança mimada que ela teria sido? Alguém que há pouco ganhou aquela silhueta e estava querendo mostrar ao mundo todo em busca de aplausos? Carência mesmo? Enfim, curiosa que sou, na saída, não resisti e perguntei: “Qual sua profissão?” Nutricionista esportiva foi a resposta. Que jogada marketing, viu?!… Deixei a loja e lá estava a moça, divulgando o telefone de seu consultório às senhorinhas. Show de bola!.. 😉